pêssegos e amoras
Uma das coisas que me deixam mais feliz é fruta catada do pé, mas infelizmente eu moro na cidade grande, de modo que poucas vezes eu fico feliz por esse motivo. Ainda assim, consigo encontrar algumas árvores frutíferas no meu caminho a pé. Goiabas, pitangas, romãs, limões e laranjas, amoras e pêssegos. É uma dádiva. Uma fruta madura no pé. Cheirosa e suculenta, implorando para ser comida*, suplicando para espalharmos suas sementes pelo solo que tudo dá. Nada pode ser mais generoso. E é.
Esses dias os pés de amora estavam carregadíssimos. No primeiro dia, interrompi a caminhada para voltar com algumas delas nas mãos, mãos em formato de súplica por uns bons três quilômetros para conservá-las, mãos manchadas de um vermelho-arroxeado que pareciam pintura. Nem dá vontade de lavar as mãos. No dia seguinte, fui de caso pensado: com potes para acomodar as delicadas delícias, azedas e doces. Um tanto comemos, mas elas ainda sobraram.
O jeito foi fazer um sorbet de amoras. É assim: amoras lavadas e sem os cabinhos, bata-as até virar um purê. Em uma panela, junte umas colheradas de geleia de amoras (embora em tenha usado de morango, que era a que tinha), água e açúcar até ferver, mexendo para dissolver o açúcar. Deixar esfriar e então misturar com o purê de amoras. Depois da mistura descansar umas boas horas na geladeira, bater tudo na sorveteira. Passar para um pote e colocar no freezer para endurecer bem. É refrescante.
As amoras começaram a escassear mas não faz mal, pois vieram os pêssegos. Encontrei um pé só aqui perto, mas carregadíssimo, calçada escorregadia de frutas caídas, apodrecendo. Aquela alegria. Alguém tinha de fazer algo e eu fiz. Voltei na manhã seguinte, sol mal nascido, com uma sacola, que ficou repleta de pêssegos. Eram tão pequenos e diferentes desses de supermercado que nem me atrevi a tirar os caroços para fazer minha empreitada: pêssegos em calda de açúcar.
Usei como guia Diana Henry, autora de lindos livros de receitas culinárias. Ela ensina fazer uns pêssegos no conhaque. Substitui o conhaque por um vermute branco que eu tinha feito em casa (sim), mas pouco, só para dar um sabor a mais. No mais, a receita dela é uma de pêssegos em calda e diz mais ou menos assim:
Para cada quilo de pêssego, usar 400g de açúcar cristal, uma canela em pau (opcional) e 600ml de conhaque (coloquei um terço do vermute). Ferver os pêssegos por um minuto e retirar a casca. Colocar metade do açúcar em uma panela com 470 ml de água e a canela, se for usar. Levar ao fogo, mexendo até dissolver o açúcar. Deixar ferver e acrescentar os pêssegos, cozinhando-os para amaciar. Tirar as frutas e colocar o açúcar restante, para ferver em fogo baixo. Tem que chegar a 105°C. Medir a calda e colocar uma medida igual da bebida alcoólica (ou não colocar). As frutas vão em fracos esterilizados, com a calda por cima até cobrir tudo. Dura muito, diz Diana.
É preciso esperar um mês antes de comer e eu ainda estou esperando. Se os pêssegos vão ficar bons? Pode ser que não e isso não me importa no final das contas. Usar uma fruta é como ter uma filha (duas, no meu caso). Agora elas são como meus pêssegos, que espero com calma para ficarem prontos. Que cresçam doces e brilhantes, loucamente coloridas. Essa espera é que é o verdadeiro sabor.
*“Uma fruta madura quer ser comida. Ela não tem outra função, não faz nenhuma outra contribuição. Não produz açúcar para nutrir o resto da planta, como fazem as folhas. Não procura água nem coleta minerais, como fazem as raízes, nem distribui nutrientes, como o caule. O único proposito de uma fruta é seduzir animais como você e eu para que nos tornemos alegres joguetes em seu cronograma reprodutivo secreto.
O sonho de toda planta é propagar seus genes e sua espécie. Para a maioria delas, isso significa esparramar as sementes para longe da árvore ou arbustos-mãe, de forma que a descendência não venha competir com os pais por água, espaço vital e luz solar. Toda semente tem seus próprios meios de transporte: asas delgadas ou bolas de penugem que voam com o vento, ou ganchos que se prendem em nossos jeans ou pele. As frutas têm outro modo. Quando a primavera passa a verão, elas se tornam rechonchudas, suculentas e brilhantemente coloridas, doces, perfumadas e irresistíveis”.
Jeffrey Steingarten, em “O homem que comeu de tudo”